Conversão de uma fazenda leiteira tradicional em orgânica

Atualmente, os consumidores vêm buscando uma alimentação mais saudável e natural, fazendo com que o consumo de produtos orgânicos cresça cada vez mais no Brasil e em todo o mundo, deixando de ser uma escolha de alguns consumidores para se tornar um estilo de vida para muitos.

Quem utiliza desses produtos faz a justificativa de serem mais saudáveis, principalmente trazendo benefícios ao meio ambiente e possuindo um maior sabor quando comparado aos produtos cultivados convencionalmente (Organis, 2017). Assim, pode-se definir uma agricultura orgânica quando há um sistema holístico de gestão da produção, levando a uma melhora da saúde dos agroecossistemas, que pode ser incluídos biodiversidades, ciclos biológicos e atividades biológicos do solo, se adaptando sempre a região que se encontra, não permitindo a utilização na cadeia produtiva de agrotóxicos, medicamentos químicos, hormônios sintéticos, transgênicos e adubos químicos. (FAO/WHO Codex Alimentarius Commission, 1999).

Visando qualidade na alimentação, livre de perigos orgânicos e químicos, e buscando o cuidado com o bem-estar animal e sustentabilidade com o ecossistema na sua fabricação, o leite orgânico vem sendo cada vez mais procurado. Por isso, um grande número de produtores rurais está alterando a produção das suas fazendas para suprir este mercado que ainda está em crescimento, levando a um aumento de 20% de propriedades produtores de leite orgânicos cadastradas segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) entre os anos de 2017 e 2018.

O aumento do número de propriedades cadastradas é consequência da visão do produtor em comercializar um produto que possui um mercado consumidor cada vez mais crescente, com preços que ultrapassam o valor da mercadoria comum. De acordo com estudos, pode ser observado que a remuneração obtida ao ano no sistema orgânico é de 5%, sendo que comparado à forma tradicional de criação essa remuneração cai para 2%, mesmo o sistema orgânico tendo uma produtividade menor quando avaliada a produção por vaca (33%), da terra (63%) e da mão de obra (47%), unido a um maior custo total por litro de leite (50%); ainda assim, a remuneração, dependendo da região, pode ser de 50 a 70% maior do que o leite convencional (Soares et. al., 2011). Sendo assim, para que a produção possa ser viável, é preciso que o valor da mercadoria seja superior a 70% comparado ao leite comum (Aroeira et. al., 2006). Foi comprovado por pesquisas que mostraram que, quando vendido diretamente ao consumidor, o leite orgânico certificado conseguiu obter preços de mercado até três vezes maiores que o preço do produto tradicional (Aroeira et. al., 2005).

Contudo, uma grande dificuldade para iniciar a produção de origem orgânica é a conversão da propriedade estruturada nos moldes tradicionais passando para um local que possui critérios específicos para ser capaz de produzir alimentos com restrições. Essa transformação é denominada por alguns autores por transição agroecológica, sendo ela a passagem do modelo de produção tradicional para formas de agricultura que utilizem ideias e métodos ecológicos. Assim, o período de conversão da unidade tradicional para uma produção orgânica é de 12 meses para culturas anuais e pastagens perenes e a adição de 6 meses no manejo orgânico dos animais, estipulado ao todo 18 meses para que a propriedade possa comercializar seus produtos.

Inicialmente é necessário o conhecimento das leis e normas que regem a produção e a comercialização de produtos de origem orgânica no brasil. Com isso, o governo formulou o decreto 6.323/2007, o qual contem a lei a lei 10.831/2003, onde se estabelece definição das categorias do produto orgânico e sua respectiva certificação: 1) venda direta sem possuir certificação; 2) certificação participativa utilizando o selo obrigatoriamente; 3) certificação feita por uma auditoria, necessitando também a utilização do selo obrigatório. O artigo 31 do decreto citado anteriormente define que a competência de certificação fica a cargo do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (SISORG), sendo gerido pelo MAPA, cabendo a responsabilidade de acompanhar as certificadoras.

Para reger as normas permitidas ou não nas propriedades, foi instituída a Instrução Normativa 46/2011, que define o regulamento técnico na produção animal e vegetal orgânica e a lista de substâncias lícitas. Na mesma normativa é disciplinado que as unidades de produção necessitam ter um plano de manejo orgânico, o qual deve conter a unidade produtiva, histórico de utilização da área, manejo residual e ações que possam promover a conservação do solo e da água, além de ações que promovam a manutenção da biodiversidade, técnicas em que os animais são submetidos de manejo sanitário, nutrição, reprodução e bem-estar e com isso a avaliação os dados da produção na fazenda.