Conversão de uma fazenda leiteira tradicional em orgânica

June 27, 2019

    Atualmente, os consumidores vêm buscando uma alimentação mais saudável e natural, fazendo com que o consumo de produtos orgânicos cresça cada vez mais no Brasil e em todo o mundo, deixando de ser uma escolha de alguns consumidores para se tornar um estilo de vida para muitos.

 

    Quem utiliza desses produtos faz a justificativa de serem mais saudáveis, principalmente trazendo benefícios ao meio ambiente e possuindo um maior sabor quando comparado aos produtos cultivados convencionalmente (Organis, 2017). Assim, pode-se definir uma agricultura orgânica quando há um sistema holístico de gestão da produção, levando a uma melhora da saúde dos agroecossistemas, que pode ser incluídos biodiversidades, ciclos biológicos e atividades biológicos do solo, se adaptando sempre a região que se encontra, não permitindo a utilização na cadeia produtiva de agrotóxicos, medicamentos químicos, hormônios sintéticos, transgênicos e adubos químicos. (FAO/WHO Codex Alimentarius Commission, 1999).

 

    Visando qualidade na alimentação, livre de perigos orgânicos e químicos, e buscando o cuidado com o bem-estar animal e sustentabilidade com o ecossistema na sua fabricação, o leite orgânico vem sendo cada vez mais procurado. Por isso, um grande número de produtores rurais está alterando a produção das suas fazendas para suprir este mercado que ainda está em crescimento, levando a um aumento de 20% de propriedades produtores de leite orgânicos cadastradas segundo o Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) entre os anos de 2017 e 2018.

 

    O aumento do número de propriedades cadastradas é consequência da visão do produtor em comercializar um produto que possui um mercado consumidor cada vez mais crescente, com preços que ultrapassam o valor da mercadoria comum. De acordo com estudos, pode ser observado que a remuneração obtida ao ano no sistema orgânico é de 5%, sendo que comparado à forma tradicional de criação essa remuneração cai para 2%, mesmo o sistema orgânico tendo uma produtividade menor quando avaliada a produção por vaca (33%), da terra (63%) e da mão de obra (47%), unido a um maior custo total por litro de leite (50%); ainda assim, a remuneração, dependendo da região, pode ser de 50 a 70% maior do que o leite convencional (Soares et. al., 2011). Sendo assim, para que a produção possa ser viável, é preciso que o valor da mercadoria seja superior a 70% comparado ao leite comum (Aroeira et. al., 2006). Foi comprovado por pesquisas que mostraram que, quando vendido diretamente ao consumidor, o leite orgânico certificado conseguiu obter preços de mercado até três vezes maiores que o preço do produto tradicional (Aroeira et. al., 2005).

 

    Contudo, uma grande dificuldade para iniciar a produção de origem orgânica é a conversão da propriedade estruturada nos moldes tradicionais passando para um local que possui critérios específicos para ser capaz de produzir alimentos com restrições. Essa transformação é denominada por alguns autores por transição agroecológica, sendo ela a passagem do modelo de produção tradicional para formas de agricultura que utilizem ideias e métodos ecológicos. Assim, o período de conversão da unidade tradicional para uma produção orgânica é de 12 meses para culturas anuais e pastagens perenes e a adição de 6 meses no manejo orgânico dos animais, estipulado ao todo 18 meses para que a propriedade possa comercializar seus produtos.

 

    Inicialmente é necessário o conhecimento das leis e normas que regem a produção e a comercialização de produtos de origem orgânica no brasil. Com isso, o governo formulou o decreto 6.323/2007, o qual contem a lei a lei 10.831/2003, onde se estabelece definição das categorias do produto orgânico e sua respectiva certificação: 1) venda direta sem possuir certificação; 2) certificação participativa utilizando o selo obrigatoriamente; 3) certificação feita por uma auditoria, necessitando também a utilização do selo obrigatório. O artigo 31 do decreto citado anteriormente define que a competência de certificação fica a cargo do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica (SISORG), sendo gerido pelo MAPA, cabendo a responsabilidade de acompanhar as certificadoras.

 

    Para reger as normas permitidas ou não nas propriedades, foi instituída a Instrução Normativa 46/2011, que define o regulamento técnico na produção animal e vegetal orgânica e a lista de substâncias lícitas. Na mesma normativa é disciplinado que as unidades de produção necessitam ter um plano de manejo orgânico, o qual deve conter a unidade produtiva, histórico de utilização da área, manejo residual e ações que possam promover a conservação do solo e da água, além de ações que promovam a manutenção da biodiversidade, técnicas em que os animais são submetidos de manejo sanitário, nutrição, reprodução e bem-estar e com isso a avaliação os dados da produção na fazenda.

 

 

Características das propriedades

 

    Em um levantamento feito nas regiões nordeste, centro-oeste, sul e sudeste do Brasil, onde foram cadastrados 239 produtores, avaliou-se as características gerais das fazendas. As propriedades continham em média 138 hectares dedicados à atividade, possuindo 41 animais em lactação e 35 secas (Soares et. al., 2011). Outros estudos mostraram que 60% das vacas em propriedades orgânicas são provenientes de cruzamentos de raças europeias e zebuínas e 40% Zebu, sendo a produção média, na época chuvosa e seca, de 9,2 kg/dia e 8,2 kg/dia, respectivamente (Aroeira et al., 2005).

 

    Com isso, pode se considerar que as propriedades orgânicas são menores, possuindo um número pequeno de animais em comparação com as tracionais, levando assim a um controle mais rígido na sua produção. Os animais precisam ficar em lugares abertos, como piquetes, onde possam expressar suas características naturais, não afetando seu comportamento, sendo proibido o uso de instalações como free stall e compost barn, onde os animais ficam confinados, e que são características de fazendas com produção intensiva. Os animais também precisam estar em lotes e nunca individualizados, como ocorre na utilização de bezerreiro ou baias. A utilização de animais de raça zebuína e seus cruzamentos, citado acima, é uma escolha estratégica, pois esses animais são resistentes ao clima, a endo e ectoparasitas, possuem uma exigência nutricional menor, se adaptando mais facilmente as regiões de clima tropical. 

 

 

Mudanças na dieta

 

    Entre uma propriedade de leite tradicional e uma orgânica existem inúmeras diferenças. Na propriedade tradicional comumente pode-se utilizar insumos de origem transgênica, fertilizantes e adubos químicos sintéticos e agrotóxicos não-orgânicos, tanto nos locais de pastejo dos animais quanto nas áreas voltadas a produção de silagem ou fenação. Porém essas práticas são proibidas em uma produção ecológica, sendo obrigatório que 85% da matéria seca fornecida aos animais seja de origem orgânica. Com isso, é aconselhado que haja parcerias com fazendas que possuam forragem comprovadamente orgânica ou que se realize a produção dos seus próprios insumos da dieta dos animais.

 

    O fornecimento de concentrado de origem orgânica e minerais é de suma importância para suprir as necessidades das vacas em diferentes períodos, mas o mais importante e mais trabalhoso de se adequar na sua nutrição é a forragem. O consórcio entre planta leguminosa e forrageira é uma alternativa viável nas áreas de pastejo e silagem, criando um alimento de qualidade que pode levar ao aumento do rendimento da matéria seca, teor de proteína bruta e ainda promovendo menor degradação do solo já que as leguminosas são plantas fixadoras de nitrogênio, consideradas um adubo verde. Combinações com capim tanzânia + calopogônio (Figura 1), Capim-Elefante + Siratro e cana-de-açúcar + Feijão Guandu foram avaliados em alguns estudos mostrando seu aumento na qualidade nutricional. Também pode se propor um sistema silvipastoril, onde as árvores e arbustos fixadores de nitrogênio possibilitam a associação com pastagens e cultivos agrícolas, promovendo a conservação do solo.

 

 

 

    Outras formas de tentar manter a qualidade da terra é a utilização de chorume ou compostagem, promovendo a adubação nas áreas de pastagem. Também é permitido o uso de calcário para corrigir a acidez do solo e termofosfato, termopotássio, pó de rocha e sulfato de potássio, utilizado restritamente como fontes de fósforo e potássio.

 

 

Controle Sanitário

 

    O controle sanitário da propriedade exige extremo cuidado dos criadores, sendo que qualquer erro pode desqualificar toda a produção. Com isso, se estipulou na Instrução Normativa 46 que numa fazenda orgânica é necessária a utilização de práticas que promovam defesas imunes nos animais utilizando para isso a alimentação adequada, exercícios, acesso ao pasto, e uso de produtos naturais. Assim, foi definido a proibição do uso de substâncias químico-sintéticas, hormônios, antibióticos, vermífugos e qualquer produto de organismos geneticamente modificados.

 

    Porém, quando o animal possui risco de morte, em situação que as substâncias permitidas não possuam efeito desejado, é válido o uso de produtos químicos-sintéticos que possam salvar o animal. Entretanto, há algumas regras para que o animal volte ao rebanho e a fornecer de leite, como 1) é preciso que o período de carência do medicamento utilizado seja o dobro do que está estipulado na bula, sendo no mínimo 98 horas; 2) a utilização destes produtos é permitida somente duas vezes ao ano, sendo que excedendo essa quantidade a vaca deverá ser retirada da produção; 3) o animal precisa ser isolado do rebanho até o fim do tratamento. Outra exceção existente na lei é a utilização das vacinas exigidas pelo MAPA e seus respectivos exames de controle, sendo indiferente a sua forma de produção.

 

    Na busca pela prevenção de doenças a higiene é um fator fundamental para evitar possíveis infecções, principalmente no combate à mastite. As técnicas utilizadas são empregadas tanto na pecuária tradicional quanto na orgânica, como a limpeza dos tetos antes e após a ordenha, higiene rigorosa dos equipamentos utilizados e isolamento de vacas contaminadas. Outra técnica que pode ser utilizada, não muito comum em produções intensivas, é a manutenção do bezerro ao pé da vaca, pois o animal mama o leite residual que ficaria no teto e aumentaria a chance de infecções.

 

   Outro problema frequente nas propriedades são os ecto e endoparasitas, que podem causar um grande prejuízo tanto para o animal quanto na produção. A higiene e a rotação de pastagem são princípios fundamentais para o combate das verminoses, onde bebedouros, comedouros e pastagens infectados possuem grande influência na infecção. A rotação de pastagem é fundamental para prevenir a infestação, principalmente em períodos chuvosos, quando o meio está mais susceptível a sua proliferação. Ao adquirir resistência, o animal possivelmente não terá danos, contudo animais mais jovens, principalmente com idade inferior a seis meses, são mais susceptíveis a infecções com alta carga parasitária, podendo apresentar riscos à saúde dos animais.

 

    Quando a prevenção das doenças não for adequada, os animais estarão susceptíveis a patógenos, podendo apresentar sintomas e ficarem debilitados. Nesta situação, como não podem ser utilizados determinados produtos já citados, apenas em casos específicos, a utilização de substâncias medicinais naturais, como tratamentos homeopáticos e fisioterapia, são alternativas de suma importância para tentar combater a doença. Existem vários compostos naturais que podem acarretar em efeitos benéficos à saúde do animal em diferentes casos, sendo diferenciados por região que a propriedade se estabelece, sendo fundamentais em uma produção agroecológica.

 

 

Escolha de uma certificadora

 

    Após todas as mudanças realizadas na propriedade é de grande importância que se procure uma certificadora autorizada, que fornecerá um selo comprovando que o produto em questão é orgânico e foi produzido seguindo todos as regras e normas de produção. Existem dois tipos de certificação: por auditagem e participativa. A certificação por auditagem é considerada mais criteriosa, tendo a necessidade da certificadora fiscalizar constantemente as propriedades, verificando o cumprimento das regras previstas nas leis federais. Este tipo de certificação promove uma confiança maior ao consumidor. A certificação participativa solicita ao produtor assegurar a qualidade do seu produto, sendo uma técnica de menor custo e que se estabelece mais rápido. Este tipo de certificação é mais recente e vem se apresentando com uma maneira mais barata para os produtores, que na sua maioria não possuem certificação, vendendo seus produtos a um menor custo.

 

 

Considerações finais

 

    Transformar um sistema de produção já consolidado nos padrões convencionais é algo complicado, especialmente quando se busca um sistema baseado na agroecologia, criando animais de forma mais natural e respeitando a natureza. Essa conversão se tornou uma alternativa principalmente para pequenos produtores, que buscam agregar valor ao seu produto, sendo assim uma alternativa para superar as crises impostas pelo mercado economia.

 

     Porém, é preciso que haja profissionais e técnicos que possuam um conhecimento específico para construir um sistema viável juntamente com o produtor, prevenindo inúmeros riscos que possam ameaçar a propriedade e as suas criações, estruturando para isso um plano para que o produtor possa produzir o leite orgânico de qualidade com menor custo, levando ao bem-estar dos seus animais em uma propriedade sustentável.

 

 

 

Referencias:

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