O complexo teníase-cisticercose

May 24, 2019

    A pecuária brasileira tem evoluído em suas estruturas de prevenção e controle para os principais problemas que possam acarretar prejuízos na produtividade ou riscos para a saúde do consumidor, a partir de forte atuação da defesa sanitária oficial e das instituições de ciência e tecnologia. De acordo com dados estatísticos da Embrapa, o Brasil ocupa lugares de destaque na produção de carne bovina e suína, alcançando em 2015 o primeiro lugar em rebanho bovino e sendo o 4° lugar no ranking mundial para a produção de carne suína. Esses dados representam números de grande importância para o mercado brasileiro tanto para exportações quanto para o produto que é comercializado no mercado interno.

 

    Apesar dos controles sanitários terem evoluído muito, muitas doenças ainda são importantes nos sistemas de produção de baixos níveis de investimento econômico e de instrução, como o complexo teníase-cisticercose. Essa parasitose está relacionada diretamente às condições sanitárias de alimentação, higiene pessoal e no modo de criação dos animais, sejam suínos ou bovinos. Para muitas pessoas, o suíno ainda é considerado o principal agente que infecta o ser humano, mas, na verdade, é o ser humano que transmite a doença para o suíno e para o bovino. O ser humano, ao defecar em locais abertos ou dar destino inadequado aos dejetos nas propriedades, possibilita a dispersão dos ovos pelo ambiente, que contaminam a água, o solo e alimentos.

 

    Antigamente, a criação de suínos era realizada em pequenas propriedades rurais com pouca ou nenhuma preocupação com a higiene e com possíveis contaminações que poderiam ocorrer, e, por isso, a carne suína, para muitas pessoas, ainda é relaciona à falta de higiene em sua produção, em decorrência do histórico da criação desses animais. Atualmente, nas principais propriedades, a carne suína é de ótima qualidade e procedência, resultante da evolução tecnológica da pecuária.

 

    A teníase, presente apenas no homem, é causada pela fase adulta do verme Taenia saginata ou Taenia solium, que são caracterizados por terem o corpo em formato de fita e por se aderirem ao sistema digestório do hospedeiro, mais precisamente no intestino. Já a cisticercose é caracterizada pela doença na fase larval da Taenia saginata ou Taenia solium; a primeira acomete bovinos e a outra pode acometer suínos e o ser humano. Em contraste com tênias adultas, há a preocupação das larvas poderem causar doença grave e letal, principalmente no cérebro, mas também no fígado, nos pulmões, nos olhos, nos músculos e nos tecidos subcutâneos do hospedeiro.

 

   No ciclo biológico do complexo teníase-cisticercose o homem é o hospedeiro definitivo, sendo, portanto, responsável pela manutenção dos parasitas no ambiente. O ciclo de vida de todos os cestódeos (classe à qual o parasita pertence) caracteriza-se por três etapas – ovos, larvas e fase adulta. Os adultos habitam o intestino do homem, onde se aderem à mucosa intestinal através do escólex e se alimentam de sangue, desenvolvem suas proglótides e liberam seus ovos. As proglótides são regiões mais caudais do verme, onde localiza-se o aparelho reprodutor e on

 

de há a maturação dos ovos que serão eliminados junto às fezes. Os ovos colocados por tênias adultas que moram no intestino de hospedeiros definitivos são excretados com as fezes para o meio ambiente e ingeridos por um hospedeiro intermediário, como os suínos e bovinos, no qual as larvas se desenvolvem, entram na circulação e se encistam principalmente na musculatura estriada.

 

   O Complexo teníase-cisticercose tem grande importância na saúde pública, por serem doenças transmitidas do homem para os animais ou do homem para o próprio homem, no caso da cisticercose, ou passadas dos animais para o homem, no caso da teníase. Esse complexo compreende na verdade duas doenças distintas com sintomatologia e epidemiologia totalmente diferentes causadas pelo mesmo cestódeo, mas em fases diferentes do seu ciclo biológico. No que se refere ao ciclo da doença ser humano–bovino, vale ressaltar a intensificação da agricultura, com vastas áreas de monoculturas, como por exemplo, extensas áreas de plantio de cana-de-açúcar em São Paulo, exigindo a concentração de lavradores nos campos, onde não há infraestrutura sanitária para as práticas fisiológicas de excreção de fezes e urina. Na possibilidade da existência de lavradores portadores da tênia, ao defecar nos ambientes rurais abertos, basta o vento e a chuva para disseminar nas pastagens ovos infectantes, que acometerão bovinos em fase de engorda nos sistemas extensivos e semiextensivos e, mais uma vez, se tem o ciclo estabelecido. A contaminação pelos cisticercos pode gerar prejuízos aos rebanhos bovino e suíno, causados pelas condenações de vísceras e carcaças.

 

    Na inspeção sanitária observa-se a presença de larvas de Taenia nos tecidos dos animais. A inspeção veterinária de carnes, executada pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF), é a medida direta de maior importância na prevenção da teníase, pois apesar de suas limitações, a inspeção identifica as carcaças com infecções intensas e leves, desde que exista alguma alteração visível macroscopicamente. Atua também como crivo sanitário, impedindo a disseminação de agentes zoonóticos. Vale lembrar que o RIISPOA define para todos os estabelecimentos que realizam práticas de abate de animais que, obrigatoriamente, devem realizar a inspeção ante e post mortem dos animais e de suas carcaças e vísceras, sejam eles fiscalizados por Serviços de Inspeção Federal, Estadual ou Municipal.

 

   Os bovinos e suínos acometidos por cisticercose não manifestam sinais clínicos. Entretanto, experimentalmente, bezerros submetidos a infecções maciças por ovos de T. saginata desenvolveram grave miocardite e insuficiência cardíaca associadas aos cisticercos em desenvolvimento no coração. Essa informação reforça, mais uma vez, a importância da inspeção rigorosa principalmente do coração durante práticas de abate, sendo aconselhável posterior reinspeção e monitoramento. No suíno infectado pode-se observar, em casos isolados, hipersensibilidade no focinho, paralisia da língua e convulsões epileptiformes. Durante a fase de disseminação, os sintomas, quando presentes, estão relacionados com a distribuição dos embriões nos diferentes tecidos e nesses casos, pode ser observada dificuldade na apreensão de alimentos, mastigação e, até mesmo, pseudoparalisia do maxilar inferior, no caso de infecção maciça dos músculos mastigadores e da língua e tosse seca e quitinosa, quando localizados nos músculos, ou na submucosa da laringe, além de transtornos cerebrais em casos de infecções severas.

 

   O controle da cisticercose baseia-se em medidas higiênico sanitárias que interrompam o ciclo do parasita e impeçam que os animais ingiram ovos do verme e que o ser humano ingira carne crua ou mal passada contendo o cisticerco.

 

    O tratamento sanitário dos dejetos é a forma mais adequada de interrupção do ciclo biológico desses parasitos. Para o tratamento das tênias os agentes anti-helmínticos praziquantel e niclosamida são bastante efetivos na maioria das infecções intestinais. Algumas infecções intestinais respondem ao tratamento anti-helmíntico, ao passo que outras requerem intervenção cirúrgica. Se o tratamento for falho ao eliminar o pescoço e o escólex, o verme inteiro poderá se regenerar. Já o tratamento para as cisticercoses infelizmente não apresenta um prognóstico favorável, já que as larvas se encontram entremeadas na musculatura e sua eliminação completa se torna inviável.

 

Referências:

Ganc, Arnaldo José; Cortez, Tamara Leite; Veloso, Paulo Potiara de Alcantara. A Carne Suína e suas Implicações no Complexo Teníase-Cisticercose. Santa Catarina, 2013.

 

Ribeiro, Naassom Almeida Souza; Telles, Evelise Oliveira; Balian, Simone de Carvalho. O Complexo Teníase Humana-Cisticercose: ainda um sério problema de saúde pública. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia. São Paulo. 2012.

 

Doenças Infecciosas e Parasitárias: Guia de Bolso, 8° edição. Ministério da Saúde Brasília/DF. junho 2010.

 

Secretaria de Estado da Saúde - Diretoria de Vigilância Epidemiológica - Gerência de Vigilância de Zoonozes. Teníase X Cisticercose. Santa Catarina. Disponível em: >http://www.dive.sc.gov.br/conteudos/zoonoses/publicacoes/Teniase_X_Cisticercose.pdf<. Acesso em: 26/03/2019.

 

Gomes , Marco Antônio Ritter Bastos. Ocorrência de Cisticercose Bovina em Frigorífico Localizado na Zona da Mata Mineira. Dissertação apresentada à Universidade Federal de Viçosa. 2014

 

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: >https://www.embrapa.br/<. Acesso em: 28/03/2019

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