Agrotóxicos e seus efeitos na saúde humana e animal

May 2, 2019

    Desde a antiguidade se procura maneiras de lidar e resolver o problema com insetos, plantas invasoras e outros animais que invadiam e destruíam lavouras inteiras que seriam utilizadas como alimento. Atualmente, esse papel é realizado principalmente pelos agrotóxicos: um grupo de inúmeros compostos químicos, que engloba os inseticidas, fungicidas, herbicidas, desfoliantes, fumigantes, entre outros, utilizados para dar um fim em pragas animais e vegetais e doenças de plantas, usados em larga escala nas pastagens pela pecuária e principalmente na agricultura pelo agronegócio.

 

    Estes compostos podem ser classificados de I a IV, de acordo com seu grau de toxicidade, após a realização de testes de DL50 (Dose Media Letal), ou seja, a dose, por via oral em miligramas, necessária para matar 50% da população de cobaias utilizadas no teste. Pode-se, assim, se estabelecer quais as medidas de segurança necessárias à aplicabilidade do agrotóxico, de forma a reduzir os riscos que o produto apresenta à saúde humana e animal.

De acordo com a classificação temos:

Tabela 1. Classificação toxicológica através do teste de DL50

 

 

    Importante salientar que esta classificação reflete apenas os danos agudos causados pela exposição, podendo ser diferente quanto a exposição prolongada, não indicando os riscos de doenças crônicas ou prolongadas, como o câncer e neuropatias.

 

    O que começou como uma solução a princípio, vem demonstrando ser um problema igual ou maior ainda, pois por se tratar de compostos químicos potentes, além de eliminarem as pragas da plantação, também podem causar graves problemas de saúde ao deixarem resíduos nos alimentos onde são utilizados e serem ingeridos pelo consumidor final, sendo amplamente tratados hoje em dia como veneno.

 

    A utilização em massa de agrotóxicos na agricultura começou na década de 1950 nos Estados Unidos, sendo dez anos depois trazida para o Brasil. Atualmente o Brasil se encontra em primeiro lugar no ranking mundial de utilização de agrotóxicos, apresentando crescimento exponencial desde a última década, mais que o dobro dos outros países, devido principalmente a influência mantida pela bancada ruralista no Congresso Nacional e as políticas adotadas pelo novo governo que, em apenas dois meses, liberou a utilização de 54 novos agrotóxicos no mercado, para serem distribuídos e utilizados pelo agronegócio. Tal medida vai completamente na contramão de países como Estados Unidos, Japão e União Europeia, onde um terço dos agrotóxicos autorizados no Brasil são proibidos.

 

    Estes compostos químicos podem ser aplicados de diversas maneiras, entre elas a pulverização costal manual, atomizador costal motorizado, pulverizador tratorizado de barra e pulverização a partir de aviões, sendo o último o responsável pelo maior número de contaminações destes compostos no meio ambiente.

 

    Os agrotóxicos podem contaminar espécies que não eram alvo do processo de controle, inclusive a espécie humana e compartimentos abióticos do ecossistema, como ar, que carreia estes compostos, levando-os a atingir recursos hídricos, fauna, flora e solo, podendo diminuir a variabilidade genética das espécies atingidas no ambiente. Com a contaminação de rios e mananciais, a contaminação pode se alastrar para toda uma população que utiliza destes recursos.

Em relação ao solo, a contaminação é feita de forma direta pela aplicação na plantação, podendo torná-lo frágil, prejudicando a própria plantação que foi tratada. O cobre presente nesse solo absorve os compostos químicos nocivos, podendo alcançar os lençóis freáticos, prejudicando o abastecimento de água.

 

    A maioria dos agrotóxicos são misturas ou preparações com um ou mais princípios ativos, contendo também aditivos, solventes, coadjuvantes, excipientes e impurezas, que podem ser até mais tóxicos que o princípio ativo principal. Entre os compostos mais tóxicos estão os organoclorados (DDT), organofosforados, paraquat, e fluoracetato de sódio.

 

    Intoxicações podem acontecer pela exposição a estas substâncias tóxicas de forma intencional, acidental, ocupacional ou ambiental e sua gravidade irá depender da via de contaminação, tempo de exposição, toxicidade da substância e concentração, e condições ambientais. Entre as reações que os compostos mais utilizados podem causar no corpo humano estão: hemorragias internas, abortos, parada cardíaca, danos aos tecidos internos, parada respiratória, vômitos, náuseas, diarreia, entre outros.

 

   Em humanos, quando houver exposição pela pele, é necessário fazer descontaminação, lavando as áreas atingidas com água fria e sabão neutro, por 20 a 30 minutos, pode-se usar solução de bicarbonato de sódio, com atenção especial aos cabelos, unhas e dobras cutâneas, não esfregando a pele com força. Já na exposição ocular, deve-se lavar com água ou solução salina morna, durante 15 a 20 min, podendo se usar colírio anestésico previamente para facilitar procedimento. Na ingestão, descontaminar o trato gastrointestinal com lavagem gástrica entre 4 e 6 horas após a ingestão, entubando o paciente, não provocar vômitos pelo risco de aspiração de derivados de petróleo (solventes utilizados nos inseticidas) e que podem evoluir para pneumonia química. Pode-se também usar no caso de ingestão o Carvão Ativado, com laxativos como sulfato de sódio ou hidróxido de magnésio (para evitar constipação intestinal pelo uso do carvão). Não usar laxantes oleosos, leite ou alimentos gordurosos, pois aumentam absorção – agentes tóxicos são lipossolúveis. Em todos os casos a partir de moderada gravidade, usar diazepam para controlar fasciculações musculares e convulsões. Bicarbonato de sódio pode ser utilizado para corrigir possível acidose metabólica.

 

    Os animais, principalmente os de produção, ficam expostos à contaminação por agrotóxicos ao consumirem água e alimentos com resíduos desses compostos, como silagem, cereais como soja e milho, e pela pastagem, por ser tratada para controle de pragas ou por receber água de lixiviação de lugares onde o agrotóxico foi aplicado. Podem ser observados nos animais efeitos como salivação intensa, lacrimejamento, fraqueza, dores e cólicas abdominais, pupilas contraídas, vômitos, dificuldade respiratória, colapso, tremores musculares, convulsões, alterações no comportamento, coma e morte.

 

    Alternativas ao uso de agrotóxicos vêm surgindo através de várias iniciativas como a Agroecologia, que se mostra como uma ciência agregadora, que se apoia nos conhecimentos dos agricultores, dos povos indígenas e dos atores sociais envolvidos em processos de desenvolvimento rural. A mesma expõe uma sugestão de manejo da terra ampliado, levando em consideração a segurança alimentar, sustentabilidade ecológica, conservação de recursos, a não aplicação de agrotóxicos, viabilidade econômica, a equidade social e a produtividade, podendo se observar que a adesão de práticas agroecológicas pode contribuir na atenuação da fragilidade de grupos familiares de agricultores.

 

    O que se deve destacar é a necessidade de mais pesquisas relacionadas aos agrotóxicos, pois muitos desses são liberados sem estudos suficientes, resultando no aparecimento de doenças, contaminação dos ecossistemas, entre outros problemas decorrentes do uso indiscriminado desses produtos.

 

Os agrotóxicos, quando usados indiscriminadamente, oferecem sérios riscos à saúde, em especial aos agricultores e aos animais de produção, que podem consumir através da água e alimentos esses químicos tão nocivos à sua saúde. Por outro lado, os benefícios do seu uso, desde que de forma racional, são inquestionáveis, independentemente do modelo de produção, seja ele convencional ou orgânico.

 

 

 

Fontes:

SuperInteressante, 2011, Quais são os piores agrotóxicos para a saúde humana? Disponível em: <https://super.abril.com.br/mundo-estranho/quais-sao-os-piores-agrotoxicos-para-a-saude-humana/>  acesso dia 08 de março de 2019

PEVASPEA, 2018, Intoxicações Agudas por Agrotóxicos: Atendimento Inicial do Paciente Intoxicado

Alencar, J. A. de, 2010, Sistema de Produção de Melão, Embrapa Semiarido: Sistema de Produção, 5 (Versão Eletrônica) Disponível em: <http://www.cpatsa.embrapa.br:8080/sistema_producao/spmelao/agrotoxicos.html>  Acesso dia 08 de março de 2019

Barrigosi, J. A. F., 201?, Uso de Agrotóxicos. EMBRAPA, Disponível em: <http://www.agencia.cnptia.embrapa.br/gestor/arroz/arvore/CONT000fohgb6co02wyiv8065610dc2ls9ti.html>  Acesso dia 08 de março de 2019

Rigotto, R. M., Vasconcelos, D. P. e, Rocha, M. M. 2014, Uso de Agrotóxicos no Brasil e Problemas para a Saúde Pública, Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, vol. 30 p. 1-3

Lopes, C. V. A., Albuquerque, G. S. C. de, 2018, Agrotóxicos e seus Impactos na Saúde Humana e Ambiental: Uma Revisão Sistemática, Saúde Debate, Rio de Janeiro v. 42   p. 518-534

Rigotto, R. M. 201?, Agrotóxicos, Núcleo TRAMAS- Trabalho, Meio Ambiente e Saúde para a Sustentabilidade Universidade Federal do Ceará

Peres, F., Moreira, J. C., Dubois, G. S. Agrotóxicos, Saúde e Ambiente: Uma Introdução ao Tema.

Trigueiro, A., 2019, Licenciamento recorde de novos agrotóxicos, G1, Disponivel em <https://g1.globo.com/natureza/blog/andre-trigueiro/post/2019/02/21/licenciamento-recorde-de-novos-agrotoxicos.ghtml>  Acesso em 8 de março de 2019

Costa, C., 2018, Na contramão de Europa e EUA, Brasil caminha para liberar mais agrotóxicos, BBC, Disponivel em <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44621328>  Acesso em 8 de março de 2019

 

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