Saiba mais sobre o Abate Halal e o Abate Kosher

 

    Com o passar dos anos, o Brasil aumenta suas exportações de carne e frango para o mundo todo. De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), as exportações tiveram um aumento de quase 6% em 2018 quando comparadas a 2017.

Juntamente com isso, o abate humanitário, que é um conjunto de procedimentos técnicos e científicos que tem como principal foco o bem-estar dos animais, vem cada vez mais sendo implementado nos frigoríferos. Esse tipo de abate tem por objetivo colocar o animal em um estado de inconsciência que perdure até o fim da sangria, não causando sofrimento desnecessário para o mesmo.

 

    Alguns países islâmicos, que possuem parte de sua população de muçulmanos e judeus, consomem carne abatida apenas através de abates específicos e pré-estabelecidos por eles, que são os chamados abate Halal e Kosher ou Kasher. O significado das palavras Halal e Kosher não é o mesmo, mas ambos envolvem um ritual muito semelhante no abate de animais. O termo Halal é a denominação que recebem os alimentos “adequados” para o consumo de acordo com a lei islâmica. Já o termo Kosher ou kasher são os alimentos preparados de acordo com as leis judaicas. Nos dois casos de abate, o animal não deve ser insensibilizado antes da degola e esta deve ser executada por uma pessoa treinada e habilitada para tal tarefa. Para que o Brasil possa exportar para esses países é necessário, consequentemente, que o abate se adeque às normas desses países.

 

 

Abate Halal

    O Islamismo, religião seguida pelos Mulçumanos, impõe restrições à alimentação de seus adeptos. Os alimentos permitidos são chamados de Halal, palavra que significa "permitido, reservado, autorizado, aprovado, legal, lícito” (GOMIDE;  RAMOS; FONTES, 2006). Neste abate, a insensibilização geralmente não é usada, porque provoca um decréscimo na sangria, e o sangue é considerado um produto proibido para o consumo.

 

    Segundo Cibal Halal (2005) o processo de certificação “Halal” teve início no Brasil em 1997, o que mostra que já somos exportadores do alimento Halal há um tempo considerável. Animais considerados Halal são aqueles permitidos para consumo de acordo com o Alcorão, dentre eles as vacas, cabras, camelos, ovelhas, patos, frangos, entre outros. Devem ser abatidos somente animais saudáveis, aprovados pelas autoridades sanitárias e que estejam em perfeitas condições físicas.

 

    O abate Halal tem algumas exigências próprias, sendo elas, que o animal deve ser abatido por um mulçumano praticante, a face do mesmo deve estar voltada para a meca e durante a degola deve-se orar pronunciando o nome de Alá. Também existem equipamentos e utensílios próprios, que devem ser sempre usados para resultar no abate correto do animal. A faca que fará a degola deve estar bem afiada, fazendo um corte no pescoço em forma de meia-lua e o processo deve ser rápido, cortando os grandes vasos, traqueia e o esôfago, fazendo com que o sangue seja totalmente extraído da carcaça. Segue imagem com mais detalhes sobre o passo a passo do abate.

 

 

Abate Kosher ou Kasher

    Entende-se por alimento Kosher ou Kasher aquele que é adequado para um judeu, garantindo sua saúde física e espiritual. Tais alimentos seguem uma série de normas contidas na Halacha, que é um conjunto de leis que regem a conduta moral adequada da cultura judaica.

 

    O termo kosher ou kasher é utilizado para definir os alimentos preparados de acordo com as leis judaicas de alimentação (REGENSTEIN & REGENSTEIN, 1979, 1988; BARKMEIER, 1998; CHANIN & HOFMAN, 1998, KOF-K KOSHER SUPERVISION, 1998). As leis da alimentação judaica, denominada de kashruth, são seguidas pelos membros da religião judaica (REGENSTEIN & REGENSTEIN, 1979, 1991; LÜCK, 1994, 1995), que atinge mais de seis milhões de pessoas nos Estados Unidos da América. Somente no Estado de New York, USA, há mais de dois milhões de judeus.

 

    As diferenças entre o abate pelo método Kosher e o convencional iniciam-se ainda na cadeia primária. Para os produtos Kosher, é necessária uma rigorosa fiscalização, por parte de agências certificadoras de produtos Kosher, no quesito alimentação, medicação dos animais e condições humanitárias da criação. A Kashruth não permite a insensibilização prévia dos animais e assim, o abate ocorre por degola direta, que é o corte único e profundo nas jugulares e carótidas. Este procedimento deve ser executado por um especialista, denominado Shochet e a sua faca chamada chalaf deve estar sempre afiada.

 

    No caso do abate dos frangos, no abate Kosher, não existe a escaldagem (tanque de escaldagem a 58°C), pois para os judeus essa temperatura já seria um cozimento do alimento. Desse modo, o processo de depenagem ocorre manualmente e, por consequência, o abate se apresenta de forma mais lenta e, muitas vezes, os animais apresentam mais rasgos e fissuras do que o normal. A salga é realizada utilizando-se um sal específico também denominado Kosher, que é um sal mais grosso que o comercial. Depois da salga, as carcaças são submersas em baldes ou tanques contendo água gelada, com o intuito de se realizar um processo de dessalga.

 

    Todas essas diferenças que existem entre o abate convencional e o Kosher têm como principal foco e objetivo a eliminação completa e a não coagulação do sangue do animal. Isso porque, para eles, o sangue de um animal não pode ser ingerido, por conferir impurezas espirituais ao ser humano. Então, o fluxograma de abate de frangos Kosher encerra-se como o convencional: saindo da dessalga, as carcaças vão para o gotejamento e por seguinte para a sala de cortes e embalagem.

Um problema que ocorre é que a legislação brasileira não descreve nada a respeito da salga e dessalga de frangos, estas duas etapas não possuem padronizações no que diz respeito a tempo, temperatura e modo de execução, gerando algumas complicações para a ação de fiscalização sanitária.

 

    No caso do abate de outros animais, o ritual é chamado de Schechita, e ocorre de forma muito semelhante ao de frango. Cada seção é precedida por uma prece especial denominada beracha e a inspeção dos animais é realizada para verificação de moléstias, injúrias e, principalmente a presença de aderências ou malformações, que condenarão o animal para o consumo (HOROVITZ, 1998; SHISLER, 2000).

 

    Os quartos dianteiros, carne de cabeça e costela são as partes mais consumidas entre os judeus. O preparo da carne tem como objetivo eliminar o máximo de sangue e consiste na imersão da carne em água, seguida por salga à seco e sal grosso. (FOLHA DE SÃO PAULO 1992, 1992a; SHISLER, 2000).

 

 

Mercado consumidor

    No Brasil atualmente existem duas certificadoras para carne Halal: a Central Islâmica Brasileira de Alimentos Halal (CIBAL Halal), reconhecida pela Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), e o Centro de Divulgação Islã para a América Latina. Já a certificação de produtos Kosher é facultada por rabinos, que são mestres ou professores dentro do judaísmo e pode ser obtida no rabinado da região onde o frigorífico está instalado ou por empresas certificadoras.

 

    Segundo dados obtidos no site da CIBAL Halal, o Brasil exporta carne bovina Halal para diversos países incluindo Irã, Egito, Argélia e Arábia Saudita. Hoje encontram-se no Brasil 15 frigoríficos habilitados a produzirem carne bovina Halal. 

 

    Os produtos Halal, fabricados de acordo com as regras muçulmanas, movimentam US$ 2,1 trilhões no mundo, sendo que deste valor, US$ 400 bilhões são vendas de produtos alimentícios. Os principais consumidores de Halal são os 1,8 bilhões de muçulmanos que estão espalhados em 112 países. Destes, 9 milhões vivem nos Estados Unidos, 20 milhões na Europa, 300 milhões na África e 800 milhões na Ásia (GAH, 2007). Mas também há pessoas de outras religiões que compram os produtos Halal (ANBA, 2007).

 

    Israel é o único país que atualmente importa carne Kosher do Brasil. Porém, podemos concluir que é um mercado em expansão, já que nos dias atuais movimenta quase 200 bilhões de dólares nos EUA.

 

 

Conclusões finais

    Há algumas décadas, o abate de animais era um assunto muito menos comentado e pesquisado, era considerado algo ainda muito precário e pouco tecnológico. A tecnologia do abate de animais destinado ao consumo somente assumiu importância científica quando foi observado que os eventos que ocorriam no abate influenciavam na qualidade da carne.

 

    Hoje ainda devido a esses conceitos a maioria dos abates se tornou humanitário, que pode ser definido como o conjunto de procedimentos técnicos e científicos que garantem o bem-estar dos animais desde o embarque na propriedade rural até a operação de sangria no matadouro-frigorífico.

 

    A Instrução Normativa No 3 de 17 de janeiro de 2000 do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (BRASIL, 2000), que regulamenta os métodos de insensibilização para o abate humanitário, obriga a insensibilização dos animais destinados ao abate. A mesma legislação, entretanto, permite o sacrifício dos animais de acordo com preceitos religiosos.

 

   Com a permissão da legislação, que autoriza o sacrifício dos animais de acordo com preceitos religiosos e com o grande mercado em expansão das exportações de alimentos de abate Halal e Kosher, podemos ressaltar que esse é um assunto novo e que vamos ainda ouvir falar muito. Para o Brasil continuar abrangendo esse mercado, é necessário buscar sempre se adequar aos critérios que são essenciais para cada abate e, assim, para continuar a ter permissão para as exportações. 

 

 

Referências

ROÇA, R. O. et al. Efeitos dos Métodos de Abate de Bovinos na Eficiência da Sangria. Ciênc. Tecnolo. Aliment., Campinas, 21(2): 244-248, maio-ago. 2001
ROÇA, R. º Abate Humanitário de Bovinos. In.: I conferência Virtual Global sobre Produção Orgânica de Bovinos de Corte, 2 de set. à 15 de out. de 2002.
Central Islâmica Brasileira de Alimentos Halal (CIBAL Halal). Disponível em: Acesso em: 03/2/2019
Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Irã. Disponível em: Acesso em: 03/2/2019
Associação Nacional dos Confinadores (ASSOCON). Clipping Eletrônico ASSOCON, edição 376.
Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne – ABIEC

AGÊNCIA DE NOTÍCIAS BRASIL-ÁRABE - ANBA. Disponível em Acesso em: 3 de fev 2019. BRASIL.

Ministério da Agricultura, Pecuária e do Abastecimento (MAPA). Secretaria de defesa Agropecuária (SDA). Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (DIPOA). Divisão de Normas Técnicas. Instrução Normativa n. 3, de 17 de janeiro de 2000. Aprova o Regulamento Técnico de Métodos de Insensibilização para o Abate Humanitário de Animais de Açougue. Lex: Diário Oficial da União de 24 de janeiro de 2000. Seção I, p. 14-16. Brasília, 2000.

 FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES MULÇUMANAS DO BRASIL - FAMBRAS. Apresentação institucional 2005. In: SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE AVES E SUÍNOS, 5. 2006, Florianópolis. Anais... Florianópolis: EMBRAPA, 2006. p. 1-18.

ROÇA, Roberto de Oliveira et al. EFEITOS DOS MÉTODOS DE ABATE DE BOVINOS NA EFICIÊNCIA DA SANGRIA. Scielo, Campinas, p.244-248, 2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/%0D/cta/v21n2/7474.pdf>. Acesso em: 3 fev. 2019.

Bridi, Ana Maria, Nicolao Fonseca, Nilva Aparecida, da Silva, Caio Abércio, Stipp Balarin, Mara Regina, Keller Marques da Costa Flaiban, Karina, Costantino, Camila, Avena Tarsitano, Marina, de Almeida Bitencourt Cardoso, Thales, Indicadores de estresse e qualidade da carne em frangos abatidos pelo método “Halal”. Semina: Ciências Agrárias [en linea] 2012, 33 (Noviembre-Diciembre):[Fecha de consulta: 3 de febrero de 2019] Disponible en:<http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=445744116037> ISSN 1676-546X

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